Sexta-feira, Janeiro 19, 2007
Quarta-feira, Outubro 18, 2006

O silêncio da noite é compreensivo
com minhas têmporas saltitantes.
A teoria que crio para ti ondula:
contemporizo, então, pelas garrafas.
E assim, te tendo e não te tendo,
denuncio, num soluço, que te amo
- perdidamente, porque assim me acho.
São rufadoras as minhas idéias,
mesmo tão maiúsculas neste agora e
tão minúsculas quando te beijo.
Elas me partem em dois, em quatro,
em oito redundantes eus que se somem
a cada tentativa de me encontrar.
com minhas têmporas saltitantes.
A teoria que crio para ti ondula:
contemporizo, então, pelas garrafas.
E assim, te tendo e não te tendo,
denuncio, num soluço, que te amo
- perdidamente, porque assim me acho.
São rufadoras as minhas idéias,
mesmo tão maiúsculas neste agora e
tão minúsculas quando te beijo.
Elas me partem em dois, em quatro,
em oito redundantes eus que se somem
a cada tentativa de me encontrar.
E todo, eu me volto para a noite.
Nas exatas manhãs em que desperto
virgem de lembranças, renovo-me.
E fico imantado a uma idéia fixa
pelas horas de hoje, talvez segundos,
talvez uma rasteira arapuca secular
na qual te levo para que me abraces.
Eu me ofereço como égide deste horror.
virgem de lembranças, renovo-me.
E fico imantado a uma idéia fixa
pelas horas de hoje, talvez segundos,
talvez uma rasteira arapuca secular
na qual te levo para que me abraces.
Eu me ofereço como égide deste horror.
Desfruto tanto de ti agora, ávido,
e te quero longe no mesmo instante
em que sinto uma colérica saudade.
E então eu quero menos e, imediato,
quero mais - do contrário, inexisto.
Não te faço compreender nada porque
guardo um misterioso amor sem palavras.
e te quero longe no mesmo instante
em que sinto uma colérica saudade.
E então eu quero menos e, imediato,
quero mais - do contrário, inexisto.
Não te faço compreender nada porque
guardo um misterioso amor sem palavras.
Terça-feira, Setembro 19, 2006

Eu te quero dourada, parva, límpia,
ouro branco de minha noite perdida.
Eu te quero esculpida em minha carne,
adorno composto de juntas e quadris.
Eu te quero rasteira, suja, molhada,
escarificando minha pele com beijos.
Eu te quero vinculada ao inferno de
um milhão de pretensões e de malícias.
Eu te quero oculta por meus abraços,
e muito calada, ocupada, mordendo.
Eu te quero fugidia, astuciosa como
as deliciosas mentiras da noite.
Eu te quero oriunda do nada, repentina,
matando-me de assustadora paixão.
Eu te quero como muitas tulipas jamais
ousariam ser, de beleza infinita.
Eu te quero rigorosamente hoje,
improvisada, mas necessariamente agora.
Eu te quero somente por um minuto
para seres, dos sonhos, propriedade.
Eu te quero porque sou louco e porque
creio em ti, sonhada; não em mim.
Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Estou a pé nesta sala branca.
Eu dou voltas pelos corrimãos
gelados de um frio espelho e,
circularmente eu, piso em falso:
percebo então a planta baixa
de meus pés colados ao chão.
São como duas folhas chatas
planando de uma latitude fria
a um poço de espuma seca; tombo,
mas retorno firme ao semi-círculo.
É meu palco, o palco de todos,
e são nossas sombras que cantam.
Um ruído surdo, uma luz ou outra,
e então os degraus: alguns calados,
porque temem os outros, atentos,
todos imateriais em sua lógica.
E estes degraus vigilantes estão
imantados e horizontalmente a sós.
As cores são o branco alucinado,
a prata fria, o gelo translúcido:
as letras nada sabem sobre a tela.
E nomes, todos em um degrau qualquer,
ou mesmo degraus em nomes quaisquer.
E o negro dos meus olhos, todo avesso.
Domingo, Agosto 06, 2006

Eram 16:15h do sábado branco
e um hialino véu de chuva
fazia transbordar minha pressa.
E uma febre aldeã curava-se
e o que urgia, então convalesceu.
e um hialino véu de chuva
fazia transbordar minha pressa.
E uma febre aldeã curava-se
e o que urgia, então convalesceu.
Como as gotas daquela chuva
que escorreram pela terra e
conheceram, transmutadas em barro,
a relva das coxilhas do sul,
escorreram também aqueles olhos todos.
Porque me querem, eu os temo
- são negros e azuis aqueles olhos,
todos me querem forte, ávido e nu.
E querem minhas respostas, suas respostas,
a absolvição frenética nas letras.
Mas não estão aqui hoje, esses olhos,
nas dezesseis horas desta água benta.
Estão pelos córregos, pelas gotas,
pelas casas, pelos caminhos etílicos.
Praticando seus crimes, estão pelas camas.
Que seria de mim sem esses olhos?
Que seria do tamborilar da água?
Seria devorado pela hipnose da mesa,
até mesclar-me no tempo, indigesto.
Escreveria o que sei e não sei.
Terça-feira, Agosto 01, 2006
Preciso de trinta e seis horas
entre uma e outra temerosidade.
Preciso de um silêncio entre elas,
que seja morno, macio, mudo
e tramado de outros enganos.
Preciso da sina incapaz do tolo
e das receitas sujas de café.
Preciso de espuma, de orvalho,
de encosto e de ar quente.
Preciso de uma noite de chuva.
Sou incapaz de dizer que preciso,
mais do que tudo e mais do que eu,
da tua presença imediata em mim.
Minha pauta é tua ausência
e tua beleza é meu assunto sério.
Preciso da esfera revolta que
são meus dias de sim e de não.
Preciso te falar de tudo que há
em minha inconstante viagem de
vôos rasos pueris: tu e eu.
Que há de triste em te perder?
A melancolia é o prazer velado
de nossos próprios desagrados.
Do teu choro frio brotam luzes
e teu sorriso todo é uma tristeza.
Preciso de trinta e seis horas
afogado em teus seios matinais:
congelo a aurora e a lua cinza.
Preciso te pedir sempre teu leito
e teu calor inerte de amêndoa.
Preciso eternamente de ti e, assim,
te solicito em minha sombra muda.
Vem, que eu me aqueço em teu silêncio;
vem, que teus seios bradam por mim:
este teu amor é estigma do acaso.
Sábado, Julho 15, 2006

A saudade goteja
a serração da pampa,
porejando em véu de
espumas e pernilongos,
semente do mais triste
dos contos do meu chão
que foi casa, tapera
de estrelas e noite
Marcas de arestas
finas do rosto amado
moreno de fogo, macio
de veludo confinado
nas distâncias que
a memória aumenta
trazidas pelo vento
de quando em quando
Se o frio que rasteja
ao oeste da campanha
enche de uivos o horizonte
embebido em sangue,
o tempo negro
se acalenta e se perde:
espera a chuva,
o silêncio e o verniz
que de úmidas folhas,
úmido orvalho
recobre de espelho
as ervas e os frutos
e segue a porejar
meus contos esquecidos
em alguma vertente
de saudade que não teve rumo
Saudades semeadas
no alabastro de dores
que seriam tantas
não fosse a textura das flores
que ficam só no ar:
o semblante volta, aromatizado
na brisa, a alma
goteja e me planta.
Nas dores, poucas
mas sentidas,
as saudades ficam
a permear meus vales
de sono, luz e glória:
o alabastro ringe,
a dor se extingue
a saudade fica.
Quarta-feira, Julho 12, 2006

Amor dos meus sonhos breves,
não espero que recrudesça em mim
o descaso que dissimulo pelos
delírios que deitam em minha cama
Já de antes cultivei carícias tuas
quando a juventude corrompida de
meus olhos te quis sem delongas
e ontem, agora e talvez depois
soube, sei e saberei tudo de ti
porque somos as cinzas das horas
passadas de um e de outro
Tu estás em mim e, em mim,
és meu sonho breve e denso
que deixa misérias de lembranças
e um poço profundo entre a
sanidade de não te ter e
a saudade que em ti invento
É tão lógica e tão vã a esperança
que guardo pelos segundos que
te quero comigo, porém
é longa a tua distância
e são vagos os meus sonhos
Te amanheço, então, em meu despertar
lugente e úmido de ti
e assim a alvorada encerra
todo meu ciclo sumário vital
Revelando que quero estar em ti,
adultero as leis do nosso amor,
que não é mais do que eu mesmo
em tua cabeça que me sonha.
Segunda-feira, Julho 03, 2006

Meu espectro divide-se em dois:
a metade que amo, desconheço;
a metade que quero, apaga-me.
Deste binômio potencial,
revelo-te um susto.
a metade que amo, desconheço;
a metade que quero, apaga-me.
Deste binômio potencial,
revelo-te um susto.
Oscilo exatamente entre
memórias que tu maculas
e excessos que eu acanho.
Deste limiar insensato,
voam nossas foices.
E tu te aquietas risonha,
nem por isso minha, nem assim,
nem ao menos dada a outros
- tens minhas cicatrizes
controladas por tuas mãos.
Por vezes, escapas pelo riso
de algum lampejo de injúrias.
E depois chora e chora e chora.
E nem dez mil soluços teus
remontam as vigas da concórdia.
Enquanto choras, eu sangro.
E novamente meu espectro parte-se.
E agora já sou três, já sou quatro.
Torno-me um tabuleiro de razões
guiadas por uma bússola de amor.
De rodar e virar e ser jogado,
atiro-me em um leito qualquer
que me acolhe, tonto, ao teu lado
(parte de meu espectro está
voluntariamente aninhado à cama).
Resulta, então, que sou crônica
e tremulamente tua peça nobre,
de sombra vermelha sobre marfim.
Mutante, o vermelho vira fogo
e o marfim, uma tocha ardente.
Displicente, dá-me as costas
e torna teu corpo um bosque
úmido, miúdo, recente, ardiloso.
Tuas mutações mais densas são
minhas febres jamais maculadas.
Poderia desejar que estivesses
sempre coberta de displicência.
Mas hoje, os bosque estão cerrados
e não há tochas para flambar o céu.
E sozinho, ainda sangro.

Sento, pronto para a morte.
É neste estado que escrevo,
pois de mim brotam coisas
que estou incerto se conheço
- e ao escrevê-las, partirei.
É sempre enovelado de papéis
e de algum perfume de erva
que a janela fecha e, então,
a cordoalha de luzes do sol
revela meus olhos e canetas
A tinta que parte da pena
vai até os lados do Uruguai,
desce por um rio enxuto
e banha os pés de cidreira
destes jardins arraigados.
Pelas fenestras e claridades,
alguma grama de um tapete
viçoso me molha os lábios
e eu pinto o que vejo
nestas rasuras de invernos.
Evaporado, o orvalho cinza
mistura-se à erva e ergue-se
em aromas de espirais verdes.
Então, nascem as cidreiras,
brancas e vaidosas.
Sou longitude liquefeita
em infusão de sonhos torpes,
e pelas persianas claras,
pelas letras apagadas
e pela música do tempo, me calo.
O que dizer, à luz do torpor,
na vaga sublimação de um sonho?
Contar ventas de persianas...
Folhar artigos esquecidos...
Ouvir do rádio a mesma estação.
Sábado, Maio 20, 2006
Mais poesia...
Mais alguns dos versos que ando escrevendo. Direto do forno (se é que posso dizer isso no outono gaúcho).
Respeito o frio, respeito o chão
respeito a água, respeito o tempo
respeito as noites e as maçãs,
bem como os anos que se ajeitam
Somos fracos ante a fonte
e também fracos são os temas
que desabrocham pontiagudos
e se enovelam de importância
O acaso retumba intenso
ecoando em calos pacientes
por isso respeito as horas
transgredidas e ensinadas
e respeito a fome que tenho
por essas horas que almejo
acordado, que almejo todas
caladas, serenas e brancas
É assim e pronto assim estou
frente ao tempo, aos ponteiros,
aos limiares e aos sucedâneos:
polimorfo de minhas condições
porque respeito as raízes
dos tempos que foram e aqui estão.
Ocupando as razões do pretérito,
respeito as coisas e assim eu sou.
Respeito o frio, respeito o chão
respeito a água, respeito o tempo
respeito as noites e as maçãs,
bem como os anos que se ajeitam
Somos fracos ante a fonte
e também fracos são os temas
que desabrocham pontiagudos
e se enovelam de importância
O acaso retumba intenso
ecoando em calos pacientes
por isso respeito as horas
transgredidas e ensinadas
e respeito a fome que tenho
por essas horas que almejo
acordado, que almejo todas
caladas, serenas e brancas
É assim e pronto assim estou
frente ao tempo, aos ponteiros,
aos limiares e aos sucedâneos:
polimorfo de minhas condições
porque respeito as raízes
dos tempos que foram e aqui estão.
Ocupando as razões do pretérito,
respeito as coisas e assim eu sou.


